Extracto de la entrevista a Caetano Veloso por Régis Bonvicino que fue publicada en 1980 en dos números de la revista Código, editada en Salvador, por Erthos Albino de Souza. Esperemos verla pronto publicada en castellano o catalán.
Régis Bonvicino: John Lennon afirma, em “Lennon Remembers/The Rolling Stone Interviews”, que suas lyrics preferidas são as que “ficam em pé” sem melodia, as que funcionam, em última análise, como poemas no papel. Isso me lembra os trovadores galego-portugueses. Desconhecemos suas melodias e conhecemos apenas suas lyrics, que, mesmo sem som, funcionam à maravilha como poemas no papel. Você toparia usar esse critério em relação às suas letras? Quais as suas preferidas? Por quê?
Caetano Veloso: Não, esse critério, na verdade, é praticamente o oposto do meu, porque o que me interessa é a palavra cantada.
Talvez tenha sido esse o caminho que levou os trovadores provençais, os galego-portugueses, a fazerem poemas que terminaram sendo bonitos mesmo sem as melodias. Talvez, tenha sido esse o caminho, esse lance de ter a palavra já com o som musical.
Acho que o critério de John Lennon pode ser mais ou menos esse, mas não sei se, de fato, é esse, se corresponde à própria realidade poética dele.
Não sei, pode ser que, a posteriori, depois de muito tempo, a gente possa ler uma letra sem música e achar um barato.
Penso que Lennon, quando fez aquela afirmação, queria dizer que ele estava mais vinculado ao texto, entendeu? Ele cita, se não me engano, “Across the Universe”, que considera um poema lindíssimo mesmo sem a música, mas quando fala do que acha ser a grande poesia do rock and roll, lembra imediatamente de Chuck Berry e de algumas coisas de Little Richard. Ele fala de coisas que você sabe que são maravilhosas porque são aqueles rocks e ele achou tudo incrível, importantíssimo sem ter lido antes no papel.
Sobre as minhas letras, não sei dizer as de que mais gosto, depende da época. Por exemplo, tomei um susto outro dia porque ultimamente não tenho escrito minhas letras. Das do LP Cinema transcendental apenas uma escrevi parcialmente no papel antes da música, foi “Oração ao tempo”. Escrevi umas estrofes e bolei, em seguida, uma melodia para a primeira estrofe. Depois, resolvi repetir essa melodia para o resto do texto, queria tudo com a mesma métrica, o mesmo ritmo. Foi a única, portanto, que eu escrevi no papel.
O jornal Enfim, do Tarso de Castro, pediu pra eu mandar letras inéditas, antes do disco sair, pra publicar. Entreguei “Lua de são Jorge”, “Oração ao tempo” e “Menino do rio”. A que mais curtia era “Lua de são Jorge”. Bati à máquina e não prestei muita atenção. Mandei pro jornal, que editou só as duas últimas.
Acho a letra de “Menino do rio”, quando canto, deslumbrante, adoro aquele verso “O Havaí seja aqui”, que tem um som afro. Agora, quando eu vi no jornal, escrita, achei uma coisa débil mental, tola. E ela não é tola, pelo contrário, é muito bonita quando cantada! “Oração ao tempo”, por outro lado, segurava mais, podia ser lida.
A palavra cantada é, em suma, outro tipo de matéria-prima, que tem a ver com a palavra escrita e com a falada, mas que não se reduz a nenhuma delas. A palavra cantada funciona, talvez, como síntese das outras duas, tem desempenhado, pelo menos, essa função, porque toda a curtição da palavra em estado de poesia tem sido muito mais intensa na área de música popular do que nas demais.
Talvez, esse fenômeno decorra, um pouco, do cansaço do visual, da comunicação visual, da leitura. O fim dos anos 1960, os papos de McLuhan talvez tenham sido uma notícia desse cansaço. O olho dançou. O ouvido é uma coisa mais envolvente, mais participante. O som chega de todos os lados, entra em todos os poros.
Pode ser que esse cansaço seja apenas passageiro. As coisas vão e vêm. Não creio nessa caminhada para a frente, como se pudesse haver um progresso. Não compartilho dessa ideia ocidental de progresso linear.
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